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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Monstros e Monstruosidades na Literatura



Os monstros estão presentes nas diversas manifestações artísticas. E como uma das mais tradicionais, a Literatura não podia deixar de expressá-los também. Ao longo dos séculos, muitos monstros surgiram nas letras de diversos países. A coisa toda teria começado, até onde se sabe, com os gregos: harpias, ciclopes, minotauros, sereias e mais uma infinidade de seres mitológicos.

Aqui no Brasil, nossa literatura não tem uma tradição significativa nesse setor, país de tradição literária recente com forte tendência de valorização dos aspectos, por assim dizer, mais 'realistas'. Temos alguma coisa mais sombia com o Macário e Noite na Taverna de Álvares de Azevedo, mas entre nós, a tradição gótica não rendeu grandes produções como no mundo europeu. Na mesma época em que floreciam romances de atmosfera negra na Europa (1764 - O Castelo de Otranto de Horace Walpole) , aqui a nossa preocupação estava voltada para o universo grego (Arcadismo ou Neoclassicismo) e, posteriormente,  para a nossa identidade nacional, posto que país de independência recente (1822).

Contudo, temos monstros, mas são de outro nível. Em Os Sertões de Euclides da Cunha, por exemplo, o nordestino é um hércules-quasímodo, desengonçado e estranho. 'O sertanejo é, antes de tudo, um forte', escreve o ensaísta. Se nossa natureza era magestosa no Romantismo, no Realismo de 30, a seca do sertão nordestino transforma a  caatinga em um monstro. Ao lado de Peri, o índio cristão de Alencar, há os índios com contornos monstruosos dos cronistas do descobrimento (e também os que são opositores do heroi alencariano).

De acordo com Julio Jeha, 'os monstros corporificam tudo que é perigoso e horrível na experiência humana. Eles nos ajudam a entender e organizar o caos da natureza e o nosso próprio. Nas mais antigas e diversas mitologias, o monstro aparece como símbolo da relação de estranheza entre nós e o mundo que nos cerca'.


Em Monstros e Monstruosidade na literatura, Jeha ainda argumenta que 'os monstros dão um rosto (ou não) ao nosso medo do desconhecido, que tendemos a associar ao mal a ser praticado contra nós'. O argumento do autor volta-se para as representações monstruosas como representação metafórica do Mal, isto porque, o Mal faz parte da nossa natureza humana, enquanto sujeitos morais.

O pesquisador destaca a obra Frankenstein de Mary Shelley (1831). Segundo Jeha, a criatura de Shelley inaugura 'uma linhagem de monstros que falam do nosso mal-estar perante o desenvolvimento da ciência e do progresso tecnológico, assim como diante de guerras e genocídios'. O monstro nos revela o medo que possuimos do nosso próprio progresso tecnológico. A Segunda Grande Guerra é um exemplo desse horror. A bomba atômica e o Holocausto nos revelam que podemos, apesar de toda a evolução científica, sermos ainda mais cruéis. A pergunta que a criatura de Shelley nos faz é: para onde estamos indo com o progresso científico?

Entrelinhas: E por falar em monstros e literatura, vale destacar o trabalho de um grupo de pesquisa que vem mobilizando os estudos nacionais na área: Crimes, Pecados e Monstruosidades: O Mal na Literatura. A galera formanda por professores da UFMG e UFS, tem feitos importantes congressos nacionais para divulgação e estímulo à pesquisa na área. Eu mesmo já tive a oportunidade (e orgulho) de participar de um deles, realizado aqui na terrinha dos cajueiros e dos papagaios. Até o nosso próximo encontro. Abraços monstruosos.

Para saber mais...

ANDRADE, Luiz Eduardo da Silva. A natureza monstruosa em Vidas Secas de Graciliano Ramos. Diponível em: http://www.mafua.ufsc.br/numero11/ensaios/andrade.htm. Acesso em: 18 de nov. 2009.
JEHA, Julio (org.). Monstros e monstruosidades na literatura. Belo Horizonte: UFMG, 2007.
OLIVEIRA, Amael. O rosto de Jano: Imagens ambivalentes da natureza em O Guarani de José de Alencar. Disponível em: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao09/artigos_oliveiraa.php. Acesso em: 18 de nov. 2009.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Para início de conversa




Os monstros já eram figuras presentes no imaginário popular e nas diversas manifestações artísticas, inclusive na literatura, desde, pelo menos, a Antiguidade Clássica. Na Odisséia, por exemplo, Homero narra o mito de Ulisses que teve de enfrentar sereias e o gigante Polifemo no regresso a Ítaca. Ainda mais numeroso é o acervo deles nas narrativas orais míticas: harpias, gigantes, esfinge, minotauro e quimeras.
Desde, então, os monstros vem se proliferando na literatura, destacadamente nos séculos XVIII e XIX, quando desponta na Europa a ficção gótica. Ao contrário da tradição literária voltada para a lógica da luz do dia, da racionalidade, a ficção do horror inclina-se para as sombras da noite, para mal, para o que está oculto. As manifestações malignas ecoam em “histórias de horror e terror, transcorridas em castelos arruinados, [...] habitados por seres estranhos que convivem com fantasmas e entidades sobrenaturais” (MOISÉS, 2004, p. 212).

Desde o Castelo de Otranto (1764) de Horace Walpole, primeira novela gótica, a estética do horror se disseminou pela cultura sob diversas formas, exercendo influência nas várias literaturas nacionais. Essa ficção privilegia o desocultamento dos traços mais instintivos e bárbaros da condição humana, em uma espécie de jogo onírico que rejeita a ordem do mundo civilizado para propor o caos.



A literatura [gótica] inclina-se para a loucura, a morbidez, a feiúra, o satânico. Literatura do mal – poderíamos chamá-la assim, ou mais tecnicamente, literatura fantástica. Ela ignora o sobrenatural certificado (Deus, os santos, os anjos, as boas fadas), preferindo o mal, aquilo que deveria estar oculto. Esta complacência do fantástico em relação aos valores negativos produz medo, reprovação, nojo. (AIDAR; MARCIEL, 1986, p. 28 – grifo dos autores)



Com o advento do cinema, os monstros atingiram ainda maior penetração social, ampliando significativamente o seu público. Do musical da Broadway O fantasma da ópera, passando pelo romance O exorcista de William Peter Blatty, ao clipe Triller de Michael Jackson, “o horror tornou-se um artigo básico em meio às formas artísticas contemporâneas, populares ou não” (CARROLL, 1999, p. 13).


Entrelinhas: Bem, é isso aí, não tem mais jeito. A partir de hoje, vamos conversar um pouco sobre os monstros nas diversas manifestações culturais, literatura, cinema, música, folclore, teatro, o diabo-de-quatro... É uma conversa bem informal, mesmo. Aceito todo tipo de contribuição: zumbis, vampiros, fantasmas, bruxas, lobisomen, múmias, criaturas de RPG.



Lentamente, eles chegam e sem que percebamos nos questiona sobre o que somos. Vem nos perguntar por que o criamos.



Referências:




AIDAR, José Luiz; MACIEL, Márcia. O que é vampiro. São Paulo: Brasiliense, 1986.
CARROLL, Nöel. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Campinas: Paipirus, 1999.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2004, p. 212-213.


Crédito da imagem: Monstrorum Historia