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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A sedução do vampiro

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E com vocês mais uma sucesso de audiência: o vampiro! Diante do expressivo número de fãs de nosso personagem, me pareceu razoável fazer um post que falasse exclusivamente dele. Mas a novidade não é tão nova. O tema, defende alguns, remota desde o Antigo Egito. Dos monstros, sem dúvida, é o mais popular: ao mesmo tempo que assusta, atrai, é sedutor. O vampiro não ataca a vítima, ela que se entrega às suas presas sedentas de sangue humano (Leia mais em: Conceito III: As sete teses). 'Se, por um lado, o vampiro é o horripilante que a ciência deve destruir, ou seja, a ameaça que nos atrai para a zona perigosa de umbral que é a morte-vida, por outro ele apresenta um lado mágico e mítico que fascina. Lado da sedução, da magia e do sonho: a vítima entrega o seu pescoço (sensual) ao morcego liberto', afirmam Aidar e Maciel.

Mas sem realizarmos um extenso estudo sobre o nosso temido e amado sangue-suga, falaremos apenas algumas das principais questões relativas ao nosso habitante das trevas. É inegável o imenso número de filmes (em certo sentido até constrangedor) que tratam do vampiro. Basta dá uma olhada nas prateleiras de uma locadora para ver as versões mais estranhas para a lenda. Do Drácula de Bram Stocker de Francis Coppola (1992), um dos mais bem elaborados na opinião desse pobre mortal, passando pelo estranho Entrevista com o Vampiro, em que vampiros metaforicamente encenam peças de teatro com humor negro, e chegando ao mais novo sucesso de bilheteria que a série iniciada com o Crepúsculo (2008).

Nobres ociosos e libertinos


Em um interessante ensaio, Aidar e Maciel registram que 'algumas bocas afirmam que os vampiros eram nobres ociosos que promoviam grandes orgias noturnas, atraindo donzelas da plebe. O alho poderia ter passado à história em função da estratégia das mães, que obrigavam as meninas a mastigarem-no para ficarem com mau hálito'.

Homossexualidade e Bissexualidade


Aparentemente sedutores de virgens e donzelas em perigo, os vampiros são representantes eminentemente da bissexualidade, pois se satisfazem tanto com sangue de homens como de mulheres. O ato de morder o pescoço da vítima, uma das zonas mais erótica do corpo, e de sugar o seu sangue, lembra (mas também serve de símbolo) do ato sexual. O crítico de cinema, Luiz Nazário afirma que 'o vampiro pode satisfazer-se tanto em homens quanto em mulheres, numa luxúria que contamina as vítimas. Sua verdadeira natureza é bissexual'.
O mesmo pesquisador ainda acrescenta uma padrão de similitude entre a condição vampiresca e a homossexualidade. Nazário argumenta que ambos os códigos é uma rebeldia contra os preceitos (preconceitos) de nossa sociedade. 'Tal como o morto-vivo, condenado a viver na sombra, o homossexual não pode mostrar seu desejo à luz do dia, privado da felicidade cotidiana, exclusiva dos casais heterossexuais. Tanto o vampiro quanto o homossexual representam uma ameaça fatal às instituições fundamentais da civilização: daí sua vinculação com a morte', escreve o pesquisador.

Aidar e Maciel também observam que o vampiro pode ser entendido com a representação dos excluídos do padrão de 'normalidade' estabelecida pela sociedade. Aqueles cujas formas de vida se diferenciavam dos demais eram, pois, considerados monstros. Eles seriam, escrevem, 'desgraçados no outro mundo, figuras errantes em busca de paz. Fantasmas andarilhos, presos entra a vida e a morte, cujo desespero os levava à busca da pacificação momentânea no sangue dos vivos. Sem dúvida, quem pagava o pato eram os suicidas, os malditos, os bruxos, os excomungados e sacrílegos; enfim, aqueles cujas singularidades não eram consideradas exemplares'.

Os educados vampiros atuais

Pelo que se observa, os vampiros atuais, jovens e apaixonados, ganham conotações mais humanizadoras. O forte teor erótico (homoerótico e de tendência bissexual) presentes nas representações anteriores, inclusive nos filmes citados, dão lugar ao ímpeto juvenil do rapaz que se apaixona por sua própria presa. Bonzinhos, educados e cheios de pudores, os novos vampiros não mais assustam. Agora eles querem ser como os humanos e sofrem demasiadamente por isso, como se o fato de ser homem preso aos padrões sociais do bom comportamento (eles vão à escola, fazem os deveres) fosse algo a se desejar. Particularmente prefiro os vampiros subversivos que contestam a ordem instituída. Eles vem nos perguntar por que consideramos normal as leis sociais. Ao invés de se apaixonar (obrigando-se a um relacionamento estável), o vampiro tradicional nos pergunta por que temos que casar, por que não ficamos com quem queremos (homem, mulher, os dois, os três). O vampiro clássico é a apoteose dos nossos instintos mais animalescos (o Id para os psicanalistas) e o atual é o jovem reprimido que vive sob a máscara da civilização que impõe o seu padrão de moda e comportamento social. Escondidos, os vampiros de Meyer é a representação do adolescente angustiado entre o pode ser e o que é obrigado a ser. Estranhamente, a autora propõe o bom comportamento como meta. Falta-nos vampiros mais revolucionários.

Para saber mais...


AIDAR, José Luiz; MACIEL, Márcia. O que é vampiro. São Paulo: Brasiliense, 1986.
NAZÁRIO, Luiz. Da natureza dos monstros. São Paulo: Arte & Ciência, 1998.

Imagem: Drácula de Bram Stocker de Fancis Coppola

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Imaginação materna: a faculdade formadora de monstros


Refilmagem de Nasce um monstro (2008)

Certos costumes, crenças e hábitos aparentemente banais podem ter origens remotas . Ainda hoje é comum as pessoas relacionarem as ânsias maternas ao nascimento do filho. Pode-se ouvir por aí  quem ratifica a crença na satisfação dos desejos da mulher em período de gestação. "Não se pode contrariar o desejo da mãe de comer chocolate, porque, senão, o filho pode nascer deformado" ou ainda "Ela está desejando" (assim mesmo com o verbo no intransitivo).

Esse costume tem origem nos séculos XVI e XVII, e remonta a uma verdadeira aventura da medicina e biologia da época para explicar o nascimento de crianças monstruosas. Os eruditos, doutos, médicos daquele tempo se viam diante de um problema que a ciência de então não solucionava: como explicar o nascimento de crianças-lobo, com duas cabeças, irmãos siameses, etc. A única constatação evidente era a de essas crianças, na verdade, eram monstros.

Uma ciência misteriosa

Para os doutos do período 'exercer a ciência significava confrontar-se com um lado da natureza no qual a matéria servia de suporte a toda sorte de forças ocultas. Tais forças misteriosas tanto podiam ser instrumento direto da vontade divina quanto podiam ser, ainda, expressão de harmonias e relações dissimuladas entre as diferentes partes do universo, igualmente incompreensíveis', escreve a historiadora Mary del Priore.
Fortunio Liceti, médico do século XVII.


Análise médica do que nunca foi visto

Além dessa concepção de ciência, vale ressaltar que o médico muitas vezes não era testemunha ocular do caso que descrevia. A maior parte das crianças monstruosas que ornamentam a literatura médica do século XVII nascera em áreas rurais, longe de qualquer médico. Elas entraram no mundo científico tendo como passaporte um atestado assinado por um velho padre, um cirurgião barbeiro ou uma parteira. O caso registrado era encaminhado a algum médico da cidade mais próxima, que, em vez de se mexer para constatar se de fato a criança tinha cabeça de elefante, duas asas de águia e pés de galinha, 'preferia dissertar sobre os erros da faculdade formadora do útero feminino num monstro que ele jamais viu, mas sobre o qual não parava de falar', afirma ainda Priore.

Senso crítico?

Priore relata, contudo, que esses médicos e sábios dos séculos XVI e XVII não eram desprovidos completamente de senso crítico. 'Quando repetiam um fato extraordinário, não o levavam inteiramente a sério', informa. Mas, mesmo assim, esse ceticismo era baseado ainda em preceitos da época e algumas justificativas para essa postura vinha de explicações ainda mais despropositadas. 'Quando Fortunio Liceti lê em Plínio que uma mulher copulara com um elefante, dando à luz um elefantinho, ele, ceticamente, nega-se a acreditar. E por quê? Porque, como todos sabiam, o elefante era um animal considerado muito casto, tendo por hábito esconder-se para realizar o ato sexual; como poderia ele, descaradamente, engravidar uma mulher?!', exemplifica a historiadora.


A mãe: a faculdade formadora do útero

Desse contexto, tem-se que muitos médicos de outrora definia a criança monstruosa como consequência da imaginação materna que se exercia inconscientemente sobre o útero que, por sua vez, deformava o bebê em gestação. Veja como se dava esse raciocínio: 'Apresentava-se à mulher algo de seu agrado; tal objeto excitava seu apetite. Este, por sua vez, movia e comandava a potência motriz executora das vontades da dita mulher. Tal potência agitava os espíritos, que recebiam no cérebro a imagem cobiçada, fecundando a seguir o embrião e imprimido-lhe a imagem que lhe fora consignada', descreve Priore. Assim, se a mulher tivesse visto lagosta durante a gravidez, por exemplo, daria à luz uma criança e uma lagosta (ou uma criança deformada como uma lagosta).

O pai: a semente degenerada

Os médicos da época também argumentavam que os pais podiam contribuir, embora em menos casos, com a monstruosidade da criança. A existência de gêmeos cujos corpos estivessem grudados, por exemplo, era normalmente, explicada pela quantidade excessiva de semente para um embrião, mas insuficiente para dois, relata a historiadora.

O grande passo que essas explicações médicas dão para o surgimento dos monstros vão no sentido de afastar a explicação teológica de que eles são criatura surgidas da ira divina. 'Graças à faculdade formadora, a questão dos monstros afastava-se do âmbito teológico e restringia-se, pouco a pouco, aos domínios das questões 'naturais'. A partir dos finais do século XVII, o assunto ganharia uma importância particular, e isso sobretudo porque os monstros são alvo de exames cada vez mais detalhados. Os progressos do espírito científico não permitiam mais que se dissertasse sobre um monstro que não tivesse sido visto com os próprios olhos', conclui Priore.


Para saber mais...

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os monstros são filhos de Deus?



                                                       Ulisse Aldrovandi(1522-1605) - Monstrorum historia

Os monstros que povoavam o imaginário medieval suscitaravam um problema teológico: se, de fato, eles existissem, como relatavam os cronistas da época, teriam surgido como um erro da Criação? Os monstros seriam filhos de Deus? Em resposta a essas questões, se levantou um dos maiores filósofos medievais: Santo Agostinho. O filósofo de Hipona foi um dos primeiros a perceber a importância dos monstros para o imaginário das populações.

Santo Agostinho se pergunta se seriam os monstros simultaneamente homens e criaturas de Deus. Se a inquestionável autoridade de Plínio, o velho, estivesse correta, seriam eles filhos de Adão? E por que razão interferiam na harmonia da Criação? O filósofo que via nos monstros uma expressão da vontade de Deus recorre à Bíblia para explicar a essas questões à luz da teologia:

"Pergunta-se, além disso, se é crível que os filhos de Noé ou mesmo, de Adão, de quem esses também procedem, se hajam propagado certas raças de homens monstruosos de que a história dos povos dá fé. Assegura-se, com efeito, que alguns têm um olho no meio da testa, que outros têm os pés virados para trás, que outros possuem ambos os sexos, a mamila direita de homem e a esquerda de mulher, e que, servindo-se carnalmente deles, alternativamente geram e dão à luz"

Para Agostinho, os monstros tinham algo a 'mostrar'. 'Eles mostravam (monstra = monstrare), manifestavam (ostenta = ostentare), prediziam (portenta = pra-ostendere) e anunciavam (prodigia = pro-dicere) antecipadamente tudo o que Deus ameaçara realizar futuramente no tocante aos corpos humanos. Monstros mostravam, portanto, o que podeira acontecer aos homens e os instigavam a pensar como seriam se não fossem como eram', escreve a historiadora Mary Del Priore.

O filósofo cristão conclui que os monstros descendem de Noé, já que a terra teria sido renovada com o dilúvio, e que, por conseguinte, a aparição de um homem monstruoso não deveria ser considerada um erro de Deus. 'Os monstros, homem ou raças, argumentava Santo Agostinho, faziam parte do mundo e concorriam para sua beleza. Mesmo que não pudermos explicar por que Deus os criou, devemos confessar nossa ignorância e recusar a idéia de considerá-los erros da natureza', acrescenta Priore.


               Os monstros, assim como os homens, descenderiam de Noé 

O principal resultado das reflexões agostinianas é que as raças monstruosas vão poder ser tratadas como mirabilia, o que santo Agostinho não desejava exatamente. 'Largamente representados, os monstrengos medievais acabaram por tornar-se familiares a seus contemporâneos. Além de enfeitar capitéis, pórticos e iluminuras, os monstros passaram a encontrar seu lugar em bestiários - livros que somavam histórias e descrições de animais verdadeiros e imaginários -, fazendo com que a erudição enciclopédica e o pensamento religioso se reunissem', conclui a historiadora.

Quem foi Santo Agostinho


Aurélio Agostinho (em latim: Aurelius Augustinus), Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho (Tagaste, 13 de Novembro de 354 — Hipona, 28 de Agosto de 430), foi um bispo, escritor, teólogo, filósofo, padre e Doutor da Igreja Católica. Agostinho é uma das figuras mais importantes no desenvolvimento do cristianismo no Ocidente. Agostinho foi muito influenciado pelo neoplatonismo de Plotino. Ele aprofundou o conceito de pecado original dos padres anteriores e, quando o Império Romano do Ocidente começou a se desintegrar, desenvolveu o conceito de Igreja como a cidade espiritual de Deus (em um livro de mesmo nome), distinta da cidade material do homem. Seu pensamento influenciou profundamente a visão do homem medieval. A igreja se identificou com o conceito de Cidade de Deus de Agostinho, e também a comunidade que era devota de Deus. 

Para saber mais...

SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus (contra os pagãos). Petrópolis: Vozes, 1990.
PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Imagem: Santo Agostinho: "Os monstros concorrem para a beleza da Criação"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Imagens de um pesadelo: representações da Peste Negra na Europa



Diante do horror da morte inevitável, muitos artistas captaram em quadros a imagem do medo que assolava a Europa. Cadáveres amontoados na rua, deuses violentos, rostos desesperados: são imagens frequentes nas obras de arte do período. A esse arquivo, já bastante extenso, podem ser acrescentados outros trabalhos: livros, diários, conselhos eclesiásticos e até um santo protetor contra a peste, tudo podia ser utilizado para tranquilizar a população assombrada pela morte negra. Vejamos algumas dessas representações.

Uma praga

Uma das representações mais comuns no período de pestilência é a sua transformação em uma praga divina. Elas, por suas consequencias sociais óbvias, via unida a outros males como a fome, o desemprego, guerra e miséria. Muitas das vezes chega a ser comparada com as que atingiram o Egito na época de Moisés. "É ao mesmo tempo identificada como uma nuvem devoradora [metáfora da praga dos gafanlhotos] que chega do estrangeiro e que se desloca de país em país, da costa para o interior e de uma extremidade á outra de uma cidade, semeando a morte à sua passagem", escreve Delumeau.

Um grande incêndio

Por se alastrar de pessoa a pessoa, a peste também foi representada com um grande incêndio. Boccaccio em O Decamerão observa que "a intensidade da epidemia aumentou pelo fato de os doentes, por suas relações cotidianas, contaminarem os indivíduos ainda sãos. Assim é com o fogo, alimentado pelas matérias secas ou gordurosas que lhe são contíguas". D. Defoe também usa a mesma metáfora: "A peste é como um grande incêndio que [...], se irrompe numa cidade muito densa, aumenta sua fúria e a devasta em toda a sua extensão".

Chuva de flexas

Para os homens de Igreja e para os artistas que trabalhavam graças às suas encomendas, a peste era também e sobretudo uma chuva de flexas abatendo-se de súbito sobre os homens pela vontade de um Deus encolerizado. "O que os artista queriam também acentuar, além do aspecto da punição divina, era a instataniedade do ataque do mal e o fato de que, rico ou pobre, jovem ou velho, ninguém podia vangloriar-se de a ele escapar - dois aspectos das epidemias que impressioram vivamente todos aqueles que viveram em período de peste. A insistência na rapidez registra-se em todos os relatos de 'pestilência', escreve Delumeau. Um médico espanhol, aponta o historiador, descrevendo a peste de Málafa em 1650, fazia a mesma observação: "Muitos morriam repentinamente, outros em algumas horas, e aqueles que se acreditavam salvos caíam mortos quando menos se pensava".


São Sebastião


A comparação entre o ataque da peste e o das flechas que se abatem de improviso sobre as vítimas teve por resultado a promoção de São Sebastião na piedade popular. Delumeau explica que o motivo da popularidade do santo se deve a um princípio do magismo clássico."Atuou aqui uma das leis que domina o universo do magismo, a lei de contraste que muitas vezes não é senão um caso particular da lei de similaridade: o semelhante afasta o semelhante para suscitar o contrário. Porque São Sebastião morrera crivado de flechas, as pessoas convenceram-se de que ele afastava de seus protegidos as da peste", argumenta o historiador.

Corpos monstruosos


Outra representação recorrente é a imagem de corpos amontoados com tons azulados em estado de putrefação. "As sepulturas repletas de cadáveres mostram 'corpos monstruosos, uns inchados e negros como carvão, outros igualmente inchados, azuis, violetas e amarelados, todos fedorentos e estourados, deixando rastro do sangue podre", descreve Delumeau. Vejamos também o depoimento do Frei Benedetto Cinquanta que enumera o quadro pavoroso da peste de 1630 em Milão: "[...] a confusão dos mortos, dos moribundos, do mal e dos gritos, os uivos, o pavor, a dor, as angústias, os medos, a crueldade, os roubos, os gestos de desespero, as lágrimas, os apelos, a pobreza, a miséria, a fome, a sede, a solidão, as prisões, as ameaças, os castigos, os lazaretos, os unguentos, as operações, os bubões, os carbúculos, as suspeitas, os desfalecimentos".


Entrelinhas: No próximo post [desta vez eu o farei], falarei sobre literatura e monstruosidade. Um abraço monstruoso para todos.

Para saber mais...


DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Imagem 01: Peste Negra (retrata uma das imagens mais importantes da epidemia: a doença como uma flecha)
Imagem 02: São Sebastião - pintura de Guido Reni (Séc. XVII).
Imagem 03: A praga de Atenas no ano de 430 a.C. (a imagem representa o corpo azulado do doente e horror de um cidadão diante do odor do enfermo).


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Triunfo da Morte: imagens da peste negra na Europa




Como já falei em um post anterior, as grandes doenças que dizimam milhares de pessoas podem ser consideradas monstruosas (clique aqui e leia o post sobre a classificação nazariana dos monstros). Dentre as grandes pandemias da história, a peste negra foi, sem dúvida, a que mais marcas deixou nas sociedades medievais, renascentistas e modernas. As devastações da 'morte negra' estenderam-se pelos anos 1348-51, eliminando, assegura Froissart, a 'terça parte do mundo', com recordes sombrios de Mântua (Itália) onde as mortes atigiram 77% da população.

O historiador Jean Delumeau (2009) atesta o horror provocado pela doença na mentalidade do povo europeu: "a pesque fora virulenta na Europa e em torno da bacia mediterrânea entre os séculos VI e VIII, com uma espécie de periodicidade dos surtos epidêmicos cujos picos se davam a cada nove a doze anos. [...] Mal enraizado, implacavelmente recorrente, a peste, em razão de seus reaparecimentos repetidos, não podia deixar de criar nas populações 'um estado de nervosismo e de medo'" (DELUMEAU, 2009, p. 155).
O mesmo horror ecoa nas palavras de Boccaccio na introdução de O decamerão a respeito de Florença: "Quantos grandes palácios, quantos belas casas, quantas moradas, outrora repletos de criados, de senhores e de damas, viram afinal desaparecer até seu mais humilde servidor".

Causas da peste


Até o final do século XIX, ignoraram-se as causas da peste que a ciência de outrora atribuía à poluição do ar, ela própria ocasionada seja por funestas conjunções astrais, seja emanações pútridas vindas do solo ou do subsolo. Daí as precauções, aos nossos olhos inúteis, quando se aspergia com vinagre cartas e moedas, quando se acendiam fogueiras purificadoras nas encruzilhadas de uma cidade contaminada, quando se desinfetavam indivíduos, roupas velhas e casas por meio de perfumes violentos e de enxofre, quando se saía para a rua em período de contágio com uma máscara em forma de cabeça de pássaro cujo bico era preenchido com substância odoríferas, informa o historiador.

Hoje sabe-se que a doença era transmitida não pelos ratos (o primeiro sinal da peste era a mortalidade das murídeos), mas a pulga dos ratos pretos (Rattus rattus), infectada com a bactéria Yersinia pestis. E a transmissão se dava de um hospedeiro agonizante para um hospedeiro são. Das medidas tomadas pelo povo de outrora, era pertinente apenas queimar os tecidos, especialmente os de lã, nas casas contaminadas.

 Sintomas da doença

Dente os sintomas da doença, notadamente em sua forma bubônica, a descrição de 'carbúnculos' se destacava. No quando clínico, falava-se ainda da língua intumescida, à sede ardente, à febre intensa, aos calafrios, à irregularidade do pulso, ao delírio muitas vezes violento, às perturbações do sistema nervoso, às cefaleias (dores de cabeça), ao olhar fixo.

Vejamos o depoimento do religioso português F. de Santa-Maria sobre os horrores da 'morte negra': "É com grande razão que é chamada por antonomásia de o Mal. Pois não há sobre a terra nenhum mal que seja comparável e semelhante à peste. [...] A justiça não é mais obedecida; os ofícios param; as famílias perdem sua coerência e as ruas, sua animação. Tudo fica reduzido a uma extrema confusão. Tudo é ruína. Pois tudo é atingido e revirado pelo peso e pela grandeza de uma calamidade tão horrível. As pessoas, sem distinção de estado ou de fortuna, afogam-se numa tristeza mortal. [...] As crianças vertem lágrimas inocentes, pois sentem a desgraça sem compreendê-la" (In: DELUMEAU, 2009,177).

Entrelinhas: Na próxima semana continuamos o nosso papo sobre a Peste Negra. Falaremos sobre as representações da doença. Até lá. Abraços monstruosos.


Para saber mais...

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Imagem 01: The Triumph of Death (1562) de Pieter Brueghel The Old.
Imagem 02: Médico da Idade Média com máscara 'protetora' anti-peste.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Uma história dos fantasmas



Para os nossos antepassados a linha divisória entre a vida e a morte era bastante esfumaçada. Um morto continuava a viver entre os vivos, visitando os locais em que viveu refazendo o percurso que traçou ao longo da vida. Essa é a tese do historiador Jean Delumeau em História do Medo no Ocidente (2009). Ele explica que os mortos exerciam poder sobre os vivos ('o morto agarra o vivo'), decidiam o seu futuro quando da administração da herança no direito germânico antigo, por exemplo, mas não só isso. Para se ter uma idéia dessa influência, o historiador cita o Traicté de l'apparition des esprits de Nöel Taillepied que ensina categoricamente: "Se um bandido se aproxima do corpo que ele tiver matado, o morto começará a espumar, suar e dar algum outro sinal".

Delumeau explica ainda que existia outrora duas maneiras de acreditar nas aparições dos mortos. Uma concepção horizontal, naturalista, antiga e popular, defendia implicitamente 'a sobrevivência do duplo' (a expressão é de E. Morin): o defunto - corpo e alma - continuava a viver certo tempo e a voltar aos lugares de sua existência terrestre. A outra concepção, vertical e transcendental, foi a dos teólogos, oficiais e oficiosos, que tentaram explicar os fantasmas (expressão que não é de época) pelo jogo de forças espirituais. Os teólogos por sua vez se dividiam em protestantes e católicos.


Os fantasmas e o Protestantismo

O Protestantismo desde o início negou qualquer existência de fantasmas. No raciocínio dos reformistas só há dois lugares para onde as almas se retiram após a morte dos corpos - o paraíso e o inferno. "As que estão no paraíso não têm necessidade de ser ajudadas pelos vivos, e as que estão no inferno jamais sairão de lá e não podem receber nenhum socorro. Assim, por que as almas sairiam de seu repouso, otras de suas penas?" (DELUMEAU, 2000, p. 125)

Os fantasmas e o Catolicismo

O lado católico nega a afirmativa protestante e argumenta, com base em exemplos tirados das Escrituras,  que "Deus pode permitir que as almas dos mortos se mostrem aos vivos sob a aparência de seu corpo de outrora. Pode também autorizar os anjos, 'que vão e vem do céu à terra', a revestir uma forma humana. Quanto aos demônios, podem por sua vez aparecer aos homens seja adensando o ar como os anjos, seja emprestando 'os cadáveres e carniças dos mortos'. (DELUMEAU, 2000, p.125).


Como matar um fantasma?


Os fantasmas que vagavam pelas noites sombrias na Idade Média podiam ser vencidos? Qual o ponto fraco de uma criatura em forma gasosa? Os teólogos, demonólogos e alquimistas de outrora teorizam que o fantasma estava preso, de alguma forma, ao seu corpo. Por isso, dentre os metódos utilizados para acabar com as aparições no século XVII, quatro se destacam:

1 - Na Morávia, livram-se dos espectros desenterrando-os e queimando-os;
2 - Na Boêmia, por volta da mesma época, livram-se dos fantasmas exumando ps defuntos suspeitos e passando-lhes através do corpo uma estaca que os prega ao solo;
3 - Na Silésia, o único remédio contra essas aparições é cortar a cabeça e queimar o corpo daqueles que voltam.
4 - Na Sérvia, os fantasmas são vampiros que sugam no pescoço o sangue de suas vítimas, que morrem de langor. Quando se desenterram os mortos suspeitos de ser esses espectros maléficos, eles são encontrados como vivos, com sangue 'vermelho'. Então, sua cabeça é cortada e recolocam-se no fosso as duas partes do corpo, cobrindo-as de cal viva.

Canditados a fantasma

Delemeau ainda explica que os possíveis fantasmas seriam todos aqueles que não se haviam beneficiados de um falecimento natural e, portanto,  tinham efetuado em condições anormais a passagem da vida à morte - logo, defuntos mal integrados a seu novo universo e, por assim dizer, 'mal em sua pela'. A esse grupo acrescentava-se uma outra categoria de candidatos-fantasmas: aqueles que haviam morrido no momento ou na proximidade de um rito de passagem que, por essa razão, não se realizara (fetos mortos, casados falecidos no dia das bodas, etc.).


Entrelinhas: Por muitos anos posteriores o cristianismo tratou de cristianizar a noção de fantasma que permeia até os nossos dias e que teve importância capital para a formulação da teoria espírita, muitos dos seus pressupostos ligados à essa tradição de pensamento.

Para saber mais...

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Monstros no mundo europeu e ibero-americano no século XVI



Os monstros revelam uma crise de categorias. No mundo contemporâneo, eles demonstram como "a nossa crença no racionalismo e no mecanicismo, bem como na visão de progresso inevitável, está fragmentada." (PRIORE, 2000, p. 12). Como a personagem G.H de Clarice Lispector, o monstro é o homem que abandonou a humanidade para encontrar-se com a fera. Se hoje, é esse o contexto, o que pensavam os nossos antepassados sobre os monstros?

Em resposta a esse questionamento a historiadora Mary Del Priore pesquisa os monstros do final da Idade Média e início do Renascimento. Em seu interessante Esquecidos por Deus (2000), a autora argumenta que os monstros, diferentemente do que ocorre no mundo contemporâneo, eram temidos como um perigo real. "os monstros não eram uma representação, e sim um fato", escreve. Esse quadro só começa a se alterar com o 'descobrimento' do desconhecido alé-mar e o desenvolvimento da fisiologia.

Dentre os documentos pesquisados, Priore destaca o trabalho de Ctésias de Cnido (398 a.C.), médico grego e prisioneiro na corte de Ataxerxes II. Ele escreveu um manuscrito graças ao qual a Índia, território de prodígios, é empurrada para os confins da Terra. Ele aí consigna todas as histórias fabulosas que existiam desde Homero, povoando o país de raças fantásticas: os pigmeus, combatentes de gruas, aves com pescoço longo como o da girafa; os ciápodes, donos de um único e veloz pé que lhes servia de guarda-sol com o qual se protegiam das intempéries; os cinocéfalos, homens com cabeça de cachorro, comunicando-se por latidos por serem incapazes de usar linguagem articulada; homens peludos e sem cabeça, com olhos nos ombros, conhecidos como blêmias; homens com oito dedos e oito artelhos, cujos cabelos, brancos até os trinta anos, paradoxalmente energreciam com o passar do tempo; homens com orelhas tão grandes que lhes caíam sobre as costas, como melena.


Ciápodes: o desconhecido povo da exótica Índia


Quantos aos animais fabulosos, Ctésias descreve a antropófaga mantícora, com cabeça de homem, corpo de leão, cauda de escorpião e três fileiras de dentes; os grifos e os unicórnios, guardiães de montanhas de ouro; as gigantescas formigas, dotadas de pinças e capazes de voar.

Fragmentos de sua obra Histórias do Oriente sobreviveram graças a Plínio, o velho, que serviu de referência a todos os teratólogos latinos que escreveram entre os séculos III  e XIII: Solinos, Macróbio, Marciano Capela, Santo Agostinho, Isidoro de Servilha, Tomás de Cantimpré e Vicente de Beauvais.

Dentre esses monstros, a mantícora é sem dúvida o mais conhecido e temido pelos viajantes que conheciam a exótica Índia. Semelhante a Quimera dos gregos, a mantícora, devido ao fato de ser antropófaga, era a responsável pelo desaparecimento de  milhares de pessoas no mundo antigo (hoje acredita-se que os desaparecimentos, na verdade, tenham sido causados por Tigres). Veja a descrição que Brunneto Lattini em Livro do Tesouro (1263) faz da criatura (apud Priore):


A mantícora: a mantícora é um animal que vive na Índia, possui fisionomia humana, cor de sangue, olhos amarelhos, corpo de leão, cauda de escorpião e corre tão rápido que nenhum outro animal pode lhe escapar. As mantícoras se acasalam de tal maneira que ora uma fica embaixo, ora outra.

Entrelinhas:  Tentarei fazer um post só com referências bibliográficas para que toda vez que atualizar algum dado aqui, seja também atualizado na bibliografia. Assim sempre teremos os dados atualizados de nossas pesquisas. Amanhã, não se esqueçam, é a véspera de Todos dos Santos, ou Dia das Bruxas. O deus que morreu atravessou os portais e os espíritos poderam agora trafegar com facilidade entre os dois mundos (assunto para um futuro post). Abraços monstruosos e até a próxima semana.


Para saber mais:

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Imagem: Mantícora do livro The History of Four-footed Beasts (1607).