segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Conceito III: Sete Teses


Hoje vamos conhecer um texto clássico sobre os monstros. As famosas sete teses do professor de língua inglesa da George Washington University, Jeffrey Jerome Cohen. Para esse pesquisador, os monstros podem ser definidos, em termos de uma teoria cultural, sobre sete aspectos. Vejamos que aspectos são esses:

1 - O corpo do monstro é um corpo cultural

O monstro nasce nessas encruzilhadas metafóricas [momentos de incertezas, de crise], como a corporificação de um certo momento cultural - de uma época , de um sentimento, de um lugar (...) o corpo monstruoso é pura cultura. p. 26-27.

2 - O monstro sempre escapa

O monstro em si torna-se imaterial e desaparece, para reaparecer em algum lugar. (...) Uma 'teoria dos monstros' deve, portanto, preocupar-se com séries de momentos culturais, ligadas por uma lógica que ameaça, sempre, mudar. p. 27-29.

3 - O monstro é o arauto da crise de categorias

O monstro sempre escapa, porque ele não se presta à categorização fácil. Eles são híbridos que perturbam, híbridos cujos corpos externamente incoerentes resistem a tentativas para incluí-los em qualquer estruturação sistemática. p. 30.

4 - O monstro mora nos portões da diferença

O monstro é a incorporação do Fora, do Além - de todos aqueles loci que são teoricamente colocados como distantes e distintos, mas que se originam no Dentro. A exageração da diferença cultural se transforma em aberração monstruosa. O diferença monstruosa tende a ser: cultural, sexual, racial, nacional, político-cultural. p. 32-33.

5 - O monstro policia as fronteiras do possível


O monstro impede a mobilidade (intelectual, geográfica ou sexual), delimitando os espaços sociais através dos quais os corpos privados podem se movimentar. O monstro da proibição policia as fronteiras do possível, interditando, por meio do seu grotesco corpo, alguns comportamentos e ações e valorizando outros. p. 41-42.

6 - O medo do monstro é realmente uma espécie de desejo

Para que possa normalizar e impor o monstro está continuamente ligado a práticas proibidas. O monstro também atrai. Nós suspeitamos do monstro, nós o odiamos ao mesmo tempo que invejamos sua liberdade e, talvez, seu sublime desespero. p. 48.

7 - O monstro está situado no limiar... do tornar-se

Esses monstros nos perguntam como percebemos o mundo e nos interpelam sobre como temos representado mal aquilo que tentamos situar. Eles nos pedem para reavaliarmos nossos pressupostos culturais sobre raça, gênero, sexualidade e nossa percepção da diferença, nossa tolerância relativamente à sua expressão. Eles nos perguntam por que o criamos. p. 55.


Entrelinhas: Amanhã eu falo ainda sobre essas sete teses, tentando aplicá-las a casos complexos. Vamos perceber que a partir dessas teses a nossa visão sobre os monstros pode mudar. Eles não estão por aí somente para causar medo, eles vem significar mais coisas: medos secretos, desejos reprimidos. Até lá, então.

Para saber mais:

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.


Imagem: O medo do habitantes do além-mar gerou no imaginário medieval um verdadeiro inventário dos mais diferentes monstros.

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